Adaptar para não internar: por que investir na moradia do idoso é mais barato e mais humano do que tratar a queda
- Instituto Comuta
- 4 de mar.
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Por Jussara Souza, colaboração de Carla Gomes e Guilherme Mazon.
A casa deveria ser sinônimo de proteção. Mas, para milhões de pessoas idosas no Brasil, o ambiente doméstico é também o principal cenário de quedas — evento que frequentemente marca o início de perda de autonomia, hospitalizações prolongadas e altos custos para famílias, operadoras de plano de saúde e para o sistema de saúde.
Os dados são contundentes. O estudo “Custos das autorizações de internação hospitalar por quedas de idosos no Sistema Único de Saúde, Brasil, 2000–2020”, conduzido por Lima JS da S. e colaboradores e publicado na revista Epidemiologia e Serviços de Saúde (2022), analisou dados do SIH/SUS e identificou 1.746.097 internações por quedas em idosos no período, com custo agregado de R$ 2,3 trilhões. A maior concentração de gastos ocorreu em pessoas com 80 anos ou mais e na região Sudeste. Trata-se de um impacto financeiro expressivo e contínuo.
No setor privado, as quedas em idosos também representam impacto financeiro expressivo. O estudo “Cost and time of hospitalization for elderly people with bone fractures in a reference hospital”, (Custo e tempo de hospitalização de idosos com fraturas ósseas em um hospital de referência), (ROCHA et al., 2024), publicado na Einstein (São Paulo), analisou 156 idosos internados por fraturas decorrentes de quedas em hospital terciário e identificou que o custo por internação variou de R$ 2.006,53 a R$ 106.912,74, com média de R$ 15.695,76, permanência média de 5,25 dias e custo diário médio de R$ 4.478,64.
De forma semelhante, o estudo “O custo direto da fratura de fêmur por quedas em pessoas idosas: análise no setor privado de saúde na cidade de Brasília, 2009” (ARNDT et al., 2011) demonstrou que o tratamento cirúrgico de fratura proximal de fêmur na saúde suplementar apresentou custo médio de R$ 39.160,75 por paciente, com variação entre R$ 8.293,55 e R$ 139.837,50, e média de 7,1 dias de internação, incluindo permanência em UTI.
Além disso, o estudo “Economic analysis of falls in a private hospital in southern Brazil: a case-control study”, (Análise econômica de quedas em um hospital privado no sul do Brasil: um estudo de caso-controle), (GONZALEZ et al., 2024), publicado na revista International Journal of Nursing Practice, apontou que pacientes que sofreram quedas durante a internação apresentaram custo médio de R$ 37.601,30, enquanto aqueles sem quedas tiveram custo médio de R$ 30.721,20, evidenciando um incremento aproximado de R$ 6.880,00 por episódio associado ao evento.
Em conjunto, os dados indicam que, no setor privado brasileiro, o custo direto de quedas em idosos pode variar de alguns milhares de reais a valores superiores a R$100 mil por internação, dependendo da gravidade clínica e dos procedimentos necessários.
Mas o impacto não é apenas econômico, é vital.
Estudos brasileiros conduzidos por Guerra MTE et al. (2017), na Revista Brasileira de Ortopedia, e Viamont-Guerra MR et al. (2005), na Clinical Orthopaedics and Related Research, demonstram que a mortalidade entre idosos em um ano após fratura de quadril varia entre aproximadamente 20% e 25%, podendo alcançar patamares próximos de 30% em populações com saúde debilitada.
No estudo de Guerra MTE et al. (2017), realizado em um hospital universitário no Sul do Brasil, a mortalidade registrada entre os casos, em um ano, foi de 23,6%, com queda associada à anemia, demência e maior carga de comorbidades. Já Viamont-Guerra MR et al. (2005) identificaram mortalidade semelhante em coorte brasileira, reforçando que a fratura de quadril é marcador de fragilidade e risco elevado de óbito. Revisões nacionais publicadas na Revista Brasileira de Ortopedia e na Acta Ortopédica Brasileira corroboram mortalidade anual entre 15% e 30%, variando conforme idade, estado nutricional, tempo até cirurgia e presença de doenças crônicas.
Diante desse cenário, sabemos o quanto custa tratar uma queda Mas quanto custa evitá-la?
A revisão sistemática “A Systematic Review of Home Modifications for Aging in Place” (Uma Revisão Sistemática de Adaptações Domiciliares para o Envelhecimento no Próprio Domicílio), conduzida por Cha SM et al. (2025) e publicada no PubMed Central (PMCID: PMC11988477), é uma revisão internacional que analisou evidências de diferentes países. Os autores identificaram inicialmente 1.142 estudos nas bases de dados pesquisadas; após a remoção de duplicatas e a aplicação dos critérios de elegibilidade, 20 estudos foram incluídos na análise final. A síntese dos resultados concluiu que adaptações como barras de apoio, melhoria da iluminação, remoção de obstáculos e adequação de banheiros reduzem significativamente o risco de quedas, especialmente em idosos de alto risco.
Esse achado reforça pesquisas anteriores. Smith RD et al. (1998), no estudo “The cost-effectiveness of home assessment and modification program for falls prevention” (A relação custo-benefício de um programa de avaliação e adaptação domiciliar para a prevenção de quedas), avaliaram um programa estruturado que incluía visitas domiciliares para identificação de riscos ambientais (como tapetes soltos, iluminação inadequada e ausência de barras de apoio), seguidas da implementação de adaptações específicas na residência. O estudo partiu de um dado epidemiológico relevante: cerca de 30% das pessoas com 65 anos ou mais sofrem ao menos uma queda por ano, proporção que aumenta com o avanço da idade.
A análise econômica demonstrou que, em um período de um ano, o custo incremental da intervenção foi de US$ 172 por pessoa (aproximadamente R$ 860,00), resultando em um custo incremental de US$ 1.721 por queda evitada (cerca de R$ 8.605,00) e US$ 17.208 por lesão evitada (aproximadamente R$ 86.040,00).
Quando projetado para um horizonte de 10 anos, o modelo indicou economia líquida de US$ 92 por pessoa (cerca de R$ 460,00), caracterizando o que os autores chamam de “dominância” — isto é, a intervenção não apenas reduziu quedas e lesões, como também gerou economia global ao sistema.
Os autores ressaltam que os resultados derivam de um modelo econômico baseado em múltiplas fontes de dados e premissas, sendo indicativos, mas suficientemente robustos para apontar potencial relevante de redução de morbidade, hospitalizações e possível melhoria da qualidade de vida.
Posteriormente, Chase CA et al. (2012) realizaram revisão sistemática sobre intervenções ambientais domiciliares voltadas à prevenção de quedas, incluindo instalação de equipamentos de segurança e modificação de barreiras arquitetônicas. A revisão confirmou evidências consistentes de redução de risco, especialmente quando as adaptações eram direcionadas a idosos com histórico prévio de quedas ou limitações de mobilidade.
Quando comparamos ordens de grandeza, a diferença é evidente: adaptações residenciais simples costumam representar investimento muito inferior ao custo médio de uma única internação hospitalar. Mesmo que uma intervenção domiciliar alcance alguns milhares de reais, ainda será substancialmente inferior à média de R$15.695,76 observada em hospital terciário, sem considerar custos indiretos e risco de mortalidade.
Sabemos que quedas são multifatoriais. Sarcopenia, polifarmácia que altera reflexos e pressão arterial, alterações visuais como glaucoma, neuropatias e riscos ambientais atuam de forma combinada. As diretrizes internacionais lideradas por Montero-Odasso et al. (2022) defendem abordagem integrada: exercícios de força e equilíbrio, revisão medicamentosa e intervenções ambientais.
Hospitais de referência, como o Hospital Israelita Albert Einstein, têm papel estratégico: além de tratar episódios agudos, podem liderar iniciativas de prevenção secundária (protocolos de reabilitação precoce, agendamento de fisioterapia antes da alta e educação domiciliar) e ações comunitárias em parceria com a atenção primária. Esses estudos citados acima mostram que protocolos integrados reduzem reinternações e otimizam custos quando articulados com programas de prevenção domiciliar.
O Brasil já gastou mais de R$2,3 bilhões apenas com internações por quedas no SUS em duas décadas e hospitais privados registram custos médios elevados por episódio. Frente a esses valores, adaptar moradias e implementar programas de prevenção representam um investimento proporcionalmente pequeno e de alto retorno humano, clínico e econômico.
Adaptar uma casa pode significar evitar uma cirurgia.
Instalar uma barra pode evitar uma fratura.
Melhorar a iluminação pode preservar autonomia e salvar vidas.
Entre adaptar e internar, a escolha racional e ética é clara: prevenir é mais barato, mais eficiente e infinitamente mais humano.
Referências
CHA, S. M. et al. A systematic review of home modifications for aging in place. National Library of Medicine, 2025. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11988477/. Acesso em: 12 fev. 2026.
CHASE, C. A. et al. Home modifications to reduce falls in older adults: a systematic review. Journal of the American Geriatrics Society, v. 60, n. 1, p. 113–120, 2012.
GUERRA, M. T. E. et al. Mortalidade em um ano de pacientes idosos com fratura do quadril tratados cirurgicamente. Revista Brasileira de Ortopedia, v. 52, n. 3, p. 275–281, 2017.
LIMA, J. S. da S. et al. Custos das autorizações de internação hospitalar por quedas de idosos no Sistema Único de Saúde, Brasil, 2000–2020. Epidemiologia e Serviços de Saúde, Brasília, v. 31, n. 1, e2021603, 2022.
MONTERO-ODASSO, M. et al. World guidelines for falls prevention and management for older adults. Age and Ageing, v. 51, n. 9, afac205, 2022.
ROCHA, A. C. et al. Cost and time of hospitalization for elderly people with bone fractures in a reference hospital. einstein (São Paulo), v. 22, eAO####, 2024.
SMITH, R. D. et al. The cost-effectiveness of a home assessment and modification program for falls prevention. Age and Ageing, v. 27, n. 5, p. 555–560, 1998.
VIAMONT-GUERRA, M. R. et al. Factors affecting mortality in elderly patients with hip fractures. Clinical Orthopaedics and Related Research, n. 439, p. 45–52, 2005.
GONZALEZ, Victor A. et al. Economic analysis of falls in a private hospital in southern Brazil: a case-control study. International Journal of Nursing Practice, v. 30, e13313, 2024. DOI: 10.1111/ijn.13313. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39431424/. Acesso em: 2 mar. 2026.
ARNDT, Ângelo B. M. et al. O custo direto da fratura de fêmur por quedas em pessoas idosas: análise no setor privado de saúde na cidade de Brasília, 2009. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 14, n. 2, p. 221-231, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbgg/a/X7BHzdt6qhvW9QF8cH6xbRM/?lang=pt



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