Casas quentes, vidas em risco: o calor como expressão da desigualdade urbana
- Instituto Comuta
- 11 de fev.
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Por Jussara Souza, colaboração de Carla Gomes e Guilherme Mazon.
As mudanças climáticas deixaram de ser um fenômeno abstrato ou restrito a projeções futuras. Elas já moldam o cotidiano urbano, redefinem riscos e escancaram desigualdades históricas, especialmente quando o debate se desloca para dentro das moradias. No Brasil, país marcado por profundas desigualdades socioespaciais, a crise climática não afeta todos da mesma forma. Ela se manifesta de maneira mais intensa nos territórios populares, onde a precariedade habitacional transforma eventos climáticos extremos em crises permanentes.
Nesse contexto, o Centro de Estudos da Favela da Universidade Federal do ABC (Cefavela/UFABC) conduziu uma pesquisa recente que analisou as temperaturas de superfície em diferentes territórios da cidade de São Paulo. A partir do uso de imagens de satélite e medições comparativas, o estudo identificou diferenças de até 15 °C entre áreas de favelas e bairros formalizados vizinhos. Segundo o Cefavela, essa discrepância térmica está diretamente associada à ausência de áreas verdes, à predominância de coberturas de fibrocimento ou zinco, à alta densidade construtiva e à escassez de ventilação adequada nas moradias.
Esse dado evidencia que o calor extremo não é apenas um fenômeno climático, mas um produto da desigualdade urbana. O território onde se vive define o nível de exposição ao risco, transformando a moradia precária em um fator ativo de vulnerabilidade climática.
A dimensão habitacional do calor também é analisada pelo Nexo Jornal, no artigo “Exposição ao calor: a face invisível da moradia inadequada”. A publicação demonstra que o déficit habitacional brasileiro vai além da ausência de moradia, abrangendo milhões de domicílios que não oferecem condições mínimas de conforto térmico. Com base em dados da Fundação João Pinheiro e em estudos da Fiocruz, o texto aponta a relação entre calor excessivo no interior das casas e o aumento de doenças cardiovasculares, respiratórias, distúrbios do sono e impactos na saúde mental — especialmente entre crianças, idosos e mulheres.
A Fiocruz também destaca que ondas de calor ampliam significativamente a mortalidade em áreas urbanas vulneráveis, sobretudo onde a baixa qualidade construtiva das moradias limita a proteção térmica. Esse impacto resulta da combinação entre ondas de calor e o fenômeno da ilha de calor urbano, característico de áreas densamente construídas, com baixa cobertura vegetal e predominância de materiais que absorvem e retêm calor.
A literatura científica reforça essa relação entre calor extremo, ambiente urbano e adoecimento. A revisão sistemática conduzida por Fadly Syah Arsad et al. (2022), publicada no International Journal of Environmental Research and Public Health, analisou 32 estudos e identificou associações consistentes entre ondas de calor e o aumento da mortalidade e da morbidade, sobretudo entre idosos, crianças, populações de baixa renda e pessoas com doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e transtornos mentais. O estudo evidencia que a vulnerabilidade socioespacial e as condições de moradia são fatores centrais na amplificação dos riscos à saúde.
Quando esses fatores se somam à precariedade habitacional — moradias com baixa ventilação, coberturas inadequadas e ausência de soluções de conforto térmico — o calor deixa de ser um evento pontual e passa a operar como um fator estrutural de adoecimento, consolidando-se no interior das casas e aprofundando desigualdades em saúde.
No plano internacional, a ONU-Habitat alerta que cidades que não incorporarem a adaptação climática às políticas urbanas tendem a aprofundar desigualdades socioambientais. Nos países do Sul Global, a inadequação habitacional é apontada como um dos principais vetores de vulnerabilidade frente às mudanças climáticas.
No Brasil, essa realidade é aprofundada pela análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) no artigo “Crise climática e novas estratégias habitacionais em territórios vulneráveis”. O estudo demonstra que populações de baixa renda — majoritariamente negras — estão mais expostas a riscos climáticos por viverem em áreas com menor infraestrutura urbana e moradias estruturalmente frágeis, configurando um quadro de injustiça e racismo ambiental.
No âmbito da gestão pública local, a Prefeitura de São Paulo lançou, em 2024, o programa Sampa+Adapta, voltado ao monitoramento do calor urbano. A iniciativa reconhece oficialmente a existência de ilhas de calor na cidade e utiliza dados climáticos para subsidiar políticas de adaptação. Ainda assim, os estudos convergem em um ponto central: medir o problema não é suficiente. A adaptação climática exige intervenções concretas nas condições de moradia.
É nesse contexto que se insere a atuação do Instituto Comuta, que trabalha a moradia como eixo estratégico da adaptação climática e da justiça socioambiental. O Instituto atua a partir de diagnósticos completos, capazes de identificar com precisão as necessidades habitacionais tanto nos territórios quanto no setor privado. Nas comunidades, são avaliadas as condições gerais de habitabilidade para compreender as principais demandas locais. Já nas empresas, o Comuta mapeia funcionários em situação de vulnerabilidade habitacional, permitindo a construção de soluções direcionadas e de alto impacto social.
A partir desse diagnóstico, o Instituto implementa soluções práticas de adaptação climática, voltadas à proteção das moradias e à melhoria do conforto térmico. Entre as intervenções realizadas estão a instalação de telhas termoacústicas tipo sanduíche, que reduzem significativamente a temperatura interna durante ondas de calor e contribuem para manter o ambiente mais aquecido em períodos frios; além da abertura de pontos estratégicos de ventilação, favorecendo a ventilação cruzada e a renovação do ar nos ambientes. Sempre que possível, são priorizadas aberturas em diferentes alturas, permitindo que o ar mais frio entre por pontos inferiores e que o ar quente, naturalmente mais leve, seja dissipado pelas aberturas superiores.
Complementarmente, o Instituto atua com a instalação de forros de PVC com manta térmica, criando uma barreira adicional contra a troca de calor com o ambiente externo. Essa combinação fortalece o isolamento térmico dos cômodos por meio de materiais acessíveis e amplamente disponíveis no mercado.
Essas ações demonstram que enfrentar as mudanças climáticas passa, necessariamente, por enfrentar a precariedade habitacional. Ventilação adequada, isolamento térmico e qualificação construtiva não são apenas soluções arquitetônicas: são medidas de saúde pública, adaptação climática e proteção da vida.
As evidências apresentadas por Cefavela, Fiocruz, Ipea e organismos internacionais convergem para uma mesma conclusão: o aquecimento global já está inscrito no interior das casas populares brasileiras. Ignorar essa dimensão significa perpetuar um modelo urbano que transforma desigualdade em risco e vulnerabilidade em destino.
Garantir moradias dignas, seguras e termicamente adequadas é, hoje, uma das formas mais concretas de promover justiça climática. Porque a adaptação começa onde as pessoas vivem: dentro de casa.
Referências
BALBIM, Renato et al. Crise climática e novas estratégias habitacionais em territórios vulneráveis. Boletim Regional, Urbano e Ambiental, n. 33. Brasília: Ipea, 2024.
CENTRO DE ESTUDOS DA FAVELA (CEFAVELA). Pesquisa do Cefavela aponta diferenças de até 15 °C entre territórios de favelas e de bairros vizinhos em São Paulo. São Paulo: UFABC, 2024. Disponível em: https://cefavela.ufabc.edu.br. Acesso em: 01 fev. 2026.
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). ONU: cidades devem se preparar para mudança climática e rápida urbanização. DSS Brasil, 2023. Disponível em: https://dssbr.ensp.fiocruz.br. Acesso em: 02 fev. 2026.
NEXO JORNAL. Exposição ao calor: a face invisível da moradia inadequada. São Paulo, 2025. Disponível em: https://pp.nexojornal.com.br. Acesso em: 04 fev. 2026.
NEXO JORNAL. Mudanças climáticas e o impacto na moradia social. São Paulo, 2024. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br. Acesso em: 04 fev. 2026.
PORTAL SAÚDE NO AR. Cidades mais quentes, vidas mais curtas: a crise socioambiental do calor nas favelas e nos grandes centros. 2024. Disponível em: https://www.portalsaudenoar.com.br. Acesso em: 04 fev. 2026.
PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. Sampa+Adapta: iniciativa para monitorar o calor urbano. São Paulo, 2024. Disponível em: https://www.prefeitura.sp.gov.br. Acesso em: 04 fev. 2026.
ARSAD, Fadly Syah et al. The impact of heatwaves on mortality and morbidity and the associated vulnerability factors: a systematic review. International Journal of Environmental Research and Public Health, Basel, v. 19, n. 23, p. 1–22, 2022. DOI: 10.3390/ijerph192316356.

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