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Mulheres que constroem: mães solo, moradia e desigualdades no Brasil

  • Foto do escritor: Instituto Comuta
    Instituto Comuta
  • 18 de jun.
  • 6 min de leitura

Por Jussara Souza.


Garantir uma moradia digna é um desafio que atravessa diferentes aspectos da vida cotidiana. No Brasil, esse desafio tem um impacto ainda mais significativo para milhões de mulheres que acumulam responsabilidades relacionadas ao trabalho, ao cuidado e à manutenção da casa. Entre elas, mães solo e chefes de família enfrentam obstáculos econômicos, sociais e estruturais que tornam o acesso à moradia adequada uma questão central em suas trajetórias.


Nos últimos anos, a presença feminina como responsável pelo domicílio cresceu significativamente no país. Dados do Censo Demográfico 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que 49,1% dos domicílios brasileiros têm mulheres como responsáveis, o equivalente a cerca de 35 milhões de domicílios. Em 2010, esse percentual era de 38,7%, demonstrando uma transformação significativa na organização das famílias brasileiras ao longo da última década (IBGE, 2024).


Entre essas mulheres, um grupo merece atenção especial: as mães solo. Ainda segundo o IBGE (2022), aproximadamente 7,8 milhões de mulheres vivem com filhos sem a presença de cônjuge ou companheiro, representando 13,5% das famílias brasileiras. Essas mulheres acumulam múltiplas responsabilidades: prover renda, cuidar da casa, acompanhar a educação dos filhos e garantir as condições mínimas de vida para suas famílias.


Essa realidade está diretamente relacionada às desigualdades econômicas enfrentadas pelas mulheres. Segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) publicado em 2023, famílias chefiadas por mulheres apresentam maior probabilidade de viver em situação de pobreza, especialmente quando há crianças no domicílio. Isso acontece porque, como também mostra o estudo,  a renda média das mulheres no Brasil permanece cerca de 20% inferior à dos homens, diferença que se amplia quando consideradas mulheres negras e responsáveis por famílias monoparentais (IPEA, 2023).


Esse cenário contribui para o que a literatura acadêmica descreve como feminização da pobreza, conceito amplamente discutido pela geógrafa britânica Sylvia Chant. Em seu artigo The Feminisation of Poverty and the Feminisation of Anti-Poverty Programmes (A Feminização da Pobreza e a Feminização dos Programas de Combate à Pobreza), a autora analisa como transformações econômicas e sociais — como a ampliação das famílias monoparentais femininas, a inserção desigual das mulheres no mercado de trabalho e a persistente divisão sexual do trabalho, que concentra sobre elas as atividades de cuidado e reprodução social —  ampliaram a presença feminina entre os grupos mais vulneráveis à pobreza, especialmente em famílias chefiadas por mulheres (CHANT, 2008).


No campo da moradia, essas desigualdades também se manifestam de forma evidente. O estudo Déficit Habitacional no Brasil, produzido pela Fundação João Pinheiro para o Ministério das Cidades, estima que o país possuía mais de 5,8 milhões de moradias em déficit habitacional em 2019. Entre os fatores que compõem esse déficit estão moradias precárias, coabitação forçada, adensamento excessivo e comprometimento elevado da renda com aluguel (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 2021).


Diversas análises derivadas desses dados indicam que famílias monoparentais femininas estão entre as mais afetadas por essas condições, já que a renda precisa sustentar simultaneamente moradia, alimentação e cuidados com os filhos.


Essa relação entre gênero, trabalho reprodutivo e acesso à moradia tem sido discutida em pesquisas recentes da área de urbanismo. A arquiteta e urbanista Isadora Guerreiro, em estudos sobre habitação popular e reprodução social nas periferias brasileiras — como o artigo Casa, trabalho e renda: estratégias de sobrevivência nas periferias urbanas (GUERREIRO, 2019) — mostra como a moradia se torna um elemento central para a organização da vida cotidiana das famílias de baixa renda. Em suas pesquisas, a autora destaca que mulheres frequentemente assumem papel central na gestão da casa, na geração de renda doméstica e na condução de processos de construção ou melhoria da moradia, revelando a forte articulação entre gênero, trabalho de cuidado e produção do espaço urbano.


Além disso, pesquisas desenvolvidas no LabCidade (Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade da FAU-USP), coordenado pelas pesquisadoras Raquel Rolnik e Paula Freire Santoro, têm discutido a dimensão de gênero do déficit habitacional brasileiro. O artigo Por que o déficit habitacional brasileiro é feminino, publicado pelo laboratório em 2021, analisa dados da Fundação João Pinheiro e mostra que cerca de 60% do déficit habitacional brasileiro entre 2016 e 2019 correspondia a domicílios chefiados por mulheres, evidenciando a feminização da precariedade habitacional no país (SANTORO; ROLNIK; LABCIDADE, 2021).


Diante das dificuldades de acesso ao mercado imobiliário formal e ao crédito habitacional, muitas famílias recorrem à autoconstrução, processo no qual a própria família constrói ou amplia gradualmente sua moradia conforme consegue recursos.


Esse fenômeno foi analisado pelo urbanista John F. C. Turner em Housing by People: Towards Autonomy in Building Environments (Habitação feita pelas Pessoas: Rumo à Autonomia nos Ambientes Construídos), obra em que o autor demonstra como grande parte da produção habitacional nos países do Sul Global ocorre por meio da construção progressiva realizada pelas próprias famílias (TURNER, 1976).


No Brasil, esse processo foi amplamente discutido por pesquisadores da área urbana. Em Origens da Habitação Social no Brasil (1998), o arquiteto Nabil Bonduki demonstra como a ausência histórica de políticas públicas abrangentes levou grande parte da população urbana a produzir suas próprias casas nas periferias das cidades (BONDUKI, 1998). Já Ermínia Maricato, em O impasse da política urbana no Brasil (2011), discute como a autoconstrução se consolidou como um dos principais mecanismos de acesso à moradia nas cidades brasileiras, revelando tanto a capacidade de organização das famílias quanto às desigualdades estruturais da urbanização (MARICATO, 2011).


Quando protagonizada por mulheres — especialmente mães solo — a autoconstrução envolve desafios adicionais. Fazer obra muitas vezes significa conciliar trabalho remunerado, cuidado com os filhos e gestão da construção da própria casa.

Além das dificuldades econômicas, existem também barreiras culturais. A construção civil ainda é um setor predominantemente masculino. Dados do IBGE e da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) indicam que, ao final de 2024, as mulheres representavam apenas 11,5% da força de trabalho formal da construção civil brasileira, enquanto os homens correspondiam a 88,5% dos trabalhadores do setor. Mesmo diante dessas barreiras, mulheres têm papel central na produção da moradia popular e na organização dos territórios urbanos. Em Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo, a antropóloga Tereza Caldeira analisa como a expansão urbana brasileira foi marcada por processos de autoconstrução e produção popular da cidade, nos quais moradores das periferias (frequentemente mulheres) desempenham papel fundamental na construção e manutenção dos espaços urbanos (CALDEIRA, 2000).


De forma complementar, a pesquisa Mulheres e moradia: as invisibilidades de gênero e interseccionais das necessidades habitacionais em São Paulo, desenvolvida pela arquiteta e urbanista Samira Rodrigues de Araújo Batista como dissertação de mestrado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), analisa como desigualdades de gênero atravessam as políticas habitacionais e as condições de acesso à moradia na cidade. A partir da análise de dados sobre déficit habitacional e trabalho de campo em ocupações urbanas em São Paulo, a autora demonstra que mulheres aparecem de forma predominante entre as chefias familiares em situação de vulnerabilidade habitacional, além de assumirem papel central na gestão da moradia e na organização cotidiana das estratégias de permanência no território. A pesquisa também destaca como fatores interseccionais, como raça, renda e maternidade, intensificam essas desigualdades, tornando mães solo um dos grupos mais expostos às precariedades habitacionais nas grandes cidades brasileiras (BATISTA, 2025).


Essa participação revela também outra dimensão essencial: a casa como espaço de cuidado e reprodução da vida. Para mulheres responsáveis pela família, a moradia não representa apenas um patrimônio material. Ela significa segurança, estabilidade e proteção para os filhos.


Pensar a moradia a partir das mulheres significa reconhecer que o espaço doméstico é profundamente atravessado por desigualdades sociais. Quando uma mulher constrói sua casa, seja literalmente levantando paredes ou organizando uma obra, ela não está apenas resolvendo um problema habitacional. Ela está enfrentando um sistema de desigualdades que envolve renda, gênero, cuidado e acesso à cidade.


Neste Dia Internacional da Mulher, olhar para as mulheres que constroem suas casas — muitas vezes com as próprias mãos ou com recursos escassos — é reconhecer uma dimensão frequentemente invisível da produção das cidades brasileiras.

Nas periferias urbanas, nos mutirões e nas pequenas obras domésticas, milhares de mulheres seguem diariamente construindo não apenas casas, mas condições de vida para suas famílias.


E reconhecer esse trabalho é um passo fundamental para que o direito à moradia seja, de fato, um direito para todas.


Referências

BONDUKI, Nabil. Origens da habitação social no Brasil. São Paulo: Estação Liberdade, 1998.


CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Edusp, 2000.


CHANT, Sylvia. The feminisation of poverty and the feminisation of anti-poverty programmes: room for revision? Journal of Development Studies, 2008.


BATISTA, Samira Rodrigues de Araújo. Mulheres e moradia: as invisibilidades de gênero e interseccionais das necessidades habitacionais em São Paulo. 2025. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2025.


FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. Déficit habitacional no Brasil 2019. Belo Horizonte: FJP, 2021.

GUERREIRO, Isadora. Casa, trabalho e renda: estratégias de sobrevivência nas periferias urbanas. São Paulo, 2019.


IBGE. Censo Demográfico 2022: características dos domicílios e das famílias. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.


IPEA. Retrato das desigualdades de gênero e raça. Brasília: IPEA, 2023.


MARICATO, Ermínia. O impasse da política urbana no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2011.


ROLNIK, Raquel. Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças. São Paulo: Boitempo, 2015.


SANTORO, Paula Freire; ROLNIK, Raquel; LABCIDADE. Por que o déficit habitacional brasileiro é feminino. São Paulo: LabCidade/FAU-USP, 2021.


TURNER, John F. C. Housing by People: Towards Autonomy in Building Environments. London: Marion Boyars, 1976.



 
 
 

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