Mulheres, Construção Civil e Moradia: vozes que transformam espaços e realidades
- Instituto Comuta
- 18 de jun.
- 7 min de leitura
Por Jussara Souza.
A construção civil ainda é vista, muitas vezes, como um espaço predominantemente masculino. No entanto, quando falamos de moradia, são frequentemente as mulheres que identificam necessidades, buscam soluções, tomam decisões e assumem a responsabilidade pelo cuidado com a casa e com a família.
Para refletir sobre esse cenário, o Instituto Comuta promoveu a roda de conversa “Mulheres, Construção Civil e Moradia”, reunindo colaboradoras da organização e a arquiteta Lorrayne, do Arqtodos. O encontro trouxe relatos sobre trajetórias profissionais, desafios enfrentados por mulheres no setor, a relação entre moradia e autonomia, além da importância da representatividade feminina na construção de cidades mais inclusivas e acolhedoras.
A seguir, compartilhamos a transcrição editada desse momento de troca, aprendizado e reflexão sobre o papel das mulheres na transformação dos espaços que habitamos.
Jussara: Boa tarde, gente! Meu nome é Jussara, sou estagiária do Instituto Comuta e hoje estamos aqui para realizar uma roda de conversa com a presença da Lorrayne, do Arqtodos, e também de outras pessoas do Instituto Comuta, para conversar sobre mulheres na construção civil e moradia.
O intuito dessa conversa é abordar esse tema a partir de uma perspectiva feminina, trazendo os desafios, experiências e reflexões que atravessam a atuação das mulheres dentro da construção civil.
Carla: Sou diretora operacional do Instituto Comuta e do Comuta Reformas. Sou arquiteta e urbanista social e atuo com melhorias habitacionais desde 2021. Comecei no Comuta como estagiária e hoje faço toda a condução da gestão das obras, operação, prestação de contas, relatórios e acompanhamento dos parceiros.
Grande parte das pessoas com quem lido diariamente são homens, então as questões de gênero aparecem constantemente no nosso trabalho e no cotidiano da obra.
Lorrayne: Sou co-fundadora da Arqtodos e hoje participo das operações de gestão de projetos, da parte comercial e também da realização dos projetos arquitetônicos.
Começamos a trabalhar com reformas em 2019, logo depois da faculdade. No início, acreditávamos que os homens seriam nosso principal público, porque era a eles que associávamos as decisões sobre construção e reforma.
Mas, com o tempo, percebemos que quem realmente tomava as decisões sobre a casa — tanto estéticas, quanto funcionais — eram as mulheres. Foram elas que começaram a procurar nossos serviços, buscar soluções e pensar a organização da moradia.
A partir disso, mudamos completamente nossa forma de pensar o público e de desenvolver nosso trabalho.
Também entendemos que existe uma demanda muito forte relacionada ao medo que muitas mulheres têm de serem enganadas ou desrespeitadas por prestadores de serviço homens
Rute: Sou vendedora aqui no Comuta. Hoje estou aqui mais para ouvir e aprender do que para falar, mas estou muito feliz de participar.
Faço o atendimento inicial junto com a equipe, monto pré-orçamentos, tiro dúvidas, negocio, acompanho visitas técnicas e faço esse contato mais direto com os clientes.
Uma coisa que aprendi nesse trabalho é que hoje a gente não vende apenas reforma. A gente vende sonhos. Morar bem, viver bem e ter uma casa digna é um sonho para muitas famílias.
Sheroll: Também trabalho no Comuta e participo do Cambará Instituto, que nasceu de uma pesquisa sobre mulheres arquitetas negras no Brasil.
A pesquisa surgiu da necessidade de entender onde estavam essas mulheres arquitetas e o que elas estavam produzindo. Quando observamos os dados e a realidade profissional, percebemos que muitas mulheres acabam entrando em mercados que não necessariamente representam aquilo que elas gostariam de fazer, mas que são caminhos de sobrevivência.
Essa foi minha realidade por muitos anos. Trabalhei mais de dez anos ligada ao mercado imobiliário tradicional até começar a trabalhar diretamente com aquilo que realmente fazia sentido para mim.
Hoje, atuar com arquitetura voltada para territórios periféricos e para pessoas com uma realidade parecida com a minha traz muito mais propósito.
Jussara:Eu queria aproveitar a fala da Sheroll para perguntar como começou a relação de vocês com a construção civil e como vocês imaginavam esse ambiente antes de trabalhar diretamente nele.
Lorrayne: Minha relação com a construção civil vem muito das minhas experiências com moradia. Cresci vendo processos de autoconstrução e entendendo como a casa impacta diretamente a vida das pessoas.
Lembro muito de morar em um conjunto habitacional e sentir vergonha das condições da minha casa quando era criança. Isso ficou muito marcado em mim.
Com o tempo, fui me apaixonando pela arquitetura sem perceber que existia uma ligação direta entre aquilo que eu sentia na infância e o desejo de trabalhar com moradia.
Quando conheci a proposta do Arqtodos, percebi que era possível fazer arquitetura voltada para os nossos próprios territórios.
Também falei da trajetória da Celeste, minha sócia, que cresceu em um contexto de autoconstrução familiar, participando desses processos junto à família. Depois de casada e já mãe, ela decidiu cursar arquitetura e desenvolver um trabalho voltado justamente para pessoas que constroem suas próprias casas.
Carla: Entrei na arquitetura muito influenciada pela área de planejamento urbano. Durante a graduação inteira, meus estágios foram voltados para prefeitura e planejamento.
No final da faculdade percebi que praticamente não tinha experiência com obra e comecei a procurar estágio nessa área. Encontrei o Comuta e me identifiquei justamente porque não queria trabalhar com arquitetura de alto padrão.
Nunca imaginei que trabalharia diretamente com obra. E hoje percebo que talvez eu nunca tivesse me imaginado nesse lugar justamente por ser mulher.
Quando surgiu a oportunidade, pensei: “Se a única razão da minha insegurança é o fato de eu ser mulher, então eu preciso enfrentar isso.”
Hoje vejo essa experiência como extremamente importante para meu crescimento profissional e pessoal.
Sheroll: Minha trajetória foi mais dolorosa. Entrei na arquitetura porque gostava de matemática e desenho, mas só fui entender de verdade o que era arquitetura e urbanismo dentro da universidade.
Foi lá que comecei a me deparar com as questões sociais ligadas à cidade e à moradia.
Trabalhei muitos anos no mercado imobiliário tradicional e, apesar de ter conquistado espaço profissionalmente, comecei a questionar para quem eu realmente queria trabalhar.
Percebi que muitas mulheres não entendem arquitetura, cidade e moradia porque nunca tiveram acesso a esse conhecimento. Muitas vezes aceitamos o mínimo como suficiente porque ninguém nos ensinou que temos direito ao conforto, à segurança e à qualidade de vida dentro da nossa própria casa.
Rute: Meu contato com a construção começou muito cedo porque meu pai era pedreiro.
Depois da escola, eu ajudava carregando tijolo, enchendo lata de areia e acompanhando as obras. Mais tarde, quando fui morar em uma casa que ainda não estava terminada, comecei eu mesma a fazer os acabamentos.
Hoje moro em uma casa construída por mim e pelo meu marido. E quando conheci o trabalho do Comuta, me identifiquei muito porque ele é voltado para periferia, para pessoas que realmente precisam desse cuidado.
Jussara: Quando pensamos em construção civil, normalmente a imagem que aparece é masculina: o pedreiro, o engenheiro, o mestre de obras.
Mas, ao mesmo tempo, vocês relataram que são justamente as mulheres que procuram os serviços, organizam as reformas e acompanham as decisões.
O que muda na vida de uma mulher quando ela aprende algo relacionado à construção?
Lorrayne: Acho que a principal palavra é autonomia.
Quando uma mulher entende minimamente sobre obra e construção, ela deixa de ser passada para trás. Ela consegue questionar, entender o processo e ocupar lugares de decisão.
No início da minha trajetória, eu sentia que precisava provar duas vezes mais minha capacidade por ser mulher e também por aparentar ser muito nova.
Lembro de um cliente que inicialmente desconfiava das minhas soluções técnicas. Depois, quando a obra começou, ele passou a defender o projeto diante do próprio pedreiro.
Aquilo foi muito marcante para mim, porque percebi que eu precisava trabalhar dobrado para conquistar credibilidade, mas que era possível.
Carla: Sempre faço questão de explicar os processos da obra de forma acessível para as mulheres.
Para mim, isso também é uma forma de compartilhar poder. Quando uma mulher entende o que está sendo feito na casa dela, ela consegue tomar decisões mais conscientes e não fica tão vulnerável em situações futuras.
Também existe uma questão muito forte relacionada à segurança.
Já ouvi relatos de mulheres que se sentiram mais seguras por saber que havia mulheres acompanhando a obra ou realizando a gestão do projeto.
E isso é muito significativo.
Rute: Uma cliente comentou comigo que queria muito contratar o Comuta porque tinha passado por situações muito ruins com outros pedreiros.
Ela disse que se sentiu muito mais segura quando soube que haveria mulheres participando das visitas e acompanhando o processo.
Isso me fez perceber o quanto a presença feminina faz diferença nesse ambiente.
Antes de entrar no Comuta, eu mesma achava que engenheiros homens trabalhavam com construção e mulheres trabalhavam em outras áreas. Não imaginava mulheres ocupando esses espaços.
Hoje vejo como é importante para outras mulheres enxergarem que isso é possível.
Sheroll: Quando falamos sobre mulheres na construção civil, estamos falando também sobre autoestima, pertencimento e representação.
A gente passa boa parte da vida sendo ensinada a duvidar da própria capacidade. Então, ocupar esses espaços exige uma reconstrução constante da nossa confiança.
Ao mesmo tempo, é muito forte quando uma mulher vê outra mulher ocupando esse lugar.
Já aconteceu de clientes olharem para mim e falarem: “Meu Deus, então é possível.”
Isso compensa muita coisa.
Também penso que, quando falamos sobre construção e cidade a partir das mulheres, estamos falando sobre cidades mais acolhedoras, mais iluminadas, mais seguras e mais humanas.
Estamos falando de cidades pensadas para quem cuida, para quem circula diariamente, para quem depende de equipamentos públicos próximos de casa.
Lorrayne: A cidade não foi pensada para as mulheres. Por isso é tão importante que mais mulheres ocupem espaços de decisão política.
Precisamos de mulheres em cargos de liderança, no legislativo, no executivo, em todas as hierarquias da construção civil.
Jussara: E o que vocês acham que precisa mudar para que mais mulheres estejam presentes na construção civil e também tomando decisões relacionadas à moradia?
Lorrayne: Acho que precisamos envolver os homens nesse debate também.
Assisti recentemente ao documentário “O Silêncio dos Homens”, que mostra como o machismo também afeta os homens desde a infância.
Precisamos discutir isso desde cedo, principalmente com meninos, para quebrar padrões violentos e desigualdades que continuam sendo reproduzidas.
Carla: Também penso muito na importância das mulheres ocuparem espaços de decisão.
Quando falamos de políticas públicas, de moradia e de cidade, é fundamental que existam mulheres tomando decisões, porque somos nós que vivemos diretamente muitas dessas dificuldades.
A maior parte das famílias que vivem em situação de déficit habitacional qualitativo é chefiada por mulheres sobrecarregadas pelo trabalho, pelo cuidado e pela responsabilidade da casa.
Sheroll: Quando compartilhamos experiências como essa, fortalecemos umas às outras.
E não no sentido romantizado de que mulheres são fortes porque suportam sofrimento, mas porque estamos criando espaços de troca, acolhimento, construção coletiva e transformação.
A gente não está pensando cidades acolhedoras apenas para mulheres. Estamos pensando cidades melhores para todo mundo.
ENCERRAMENTO
Jussara: Essa conversa mostrou como as mulheres estão construindo não apenas casas e obras, mas também conhecimento, relações, redes de apoio e novas formas de pensar a cidade.
Muito obrigada a todas pela participação e pelas trocas realizadas aqui.