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Justiça climática em tempos extremos: Por que as chuvas atingem mais quem tem menos?

  • Foto do escritor: Instituto Comuta
    Instituto Comuta
  • 25 de jun.
  • 6 min de leitura

Por Jussara Souza.


Todo ano, a Semana Mundial do Meio Ambiente convida a sociedade a refletir sobre os desafios ambientais que moldam o presente e o futuro do planeta. Em um contexto de intensificação das mudanças climáticas, essa reflexão torna-se ainda mais urgente. No Brasil, os impactos da crise climática já são percebidos no cotidiano por meio de secas prolongadas, ondas de calor e, principalmente, chuvas cada vez mais intensas e concentradas. Entretanto, embora os fenômenos climáticos atinjam toda a população, seus efeitos não são distribuídos de forma igual. As consequências mais graves recaem justamente sobre aqueles que possuem menos recursos para se proteger e se recuperar.


Essa desigualdade está no centro do conceito de justiça climática. Mais do que uma discussão ambiental, a justiça climática busca compreender como fatores sociais, econômicos e territoriais influenciam a forma como diferentes grupos vivenciam os impactos das mudanças do clima. Em outras palavras, ela parte do princípio de que os danos provocados pela crise climática não dependem apenas dos eventos naturais em si, mas também das condições de vulnerabilidade existentes em cada território.


Os efeitos dessa realidade já podem ser observados em números. Segundo o relatório Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil 2025, publicado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), mais de 336 mil pessoas foram diretamente afetadas por desastres associados a eventos climáticos extremos no país ao longo do último ano. O levantamento aponta ainda prejuízos estimados em aproximadamente R$ 3,9 bilhões, evidenciando que os impactos dos eventos climáticos já representam um desafio crescente para municípios, estados e para a população brasileira.


A dimensão humana desses impactos ficou evidente durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. De acordo com balanços divulgados pela Defesa Civil do Estado e analisados pelo Cemaden, mais de 2 milhões de pessoas foram afetadas pelas chuvas extremas, centenas de municípios decretaram situação de emergência ou calamidade pública, e milhares de famílias perderam suas casas, seus meios de subsistência e o acesso a serviços básicos. Embora as chuvas tenham sido excepcionalmente intensas, especialistas apontam que a magnitude do desastre resultou da combinação entre um evento meteorológico extremo, vulnerabilidades urbanas acumuladas e a crescente influência das mudanças climáticas sobre o regime de precipitações da região.


Entre esses especialistas está o climatologista José Antonio Marengo, pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais e uma das principais referências brasileiras em mudanças climáticas. No artigo "Impactos sociais dos eventos climáticos extremos em um clima em mudança", publicado em 2024 na revista Ciência & Cultura, Marengo argumenta que o aquecimento global está alterando padrões históricos de temperatura e precipitação, aumentando a frequência e a intensidade de eventos extremos em diversas regiões do país. Segundo o pesquisador, o principal desafio das próximas décadas será fortalecer a capacidade de adaptação das cidades e das populações mais vulneráveis diante de uma realidade climática cada vez mais instável.


No entanto, uma chuva intensa não se transforma automaticamente em uma tragédia. Essa avaliação é compartilhada por pesquisadores do próprio Cemaden, como o geólogo e pesquisador Eduardo Soares de Macedo, especialista em gestão de riscos de desastres, e pela meteorologista Maria Assunção Faus da Silva Dias, professora emérita da Universidade de São Paulo (USP). Em estudos sobre riscos geo-hidrológicos e desastres urbanos, os pesquisadores destacam que os impactos de um evento climático dependem diretamente das condições de vulnerabilidade existentes no território afetado. Em outras palavras, o desastre ocorre quando uma ameaça natural encontra uma população exposta e com pouca capacidade de proteção ou resposta.


É justamente nesse ponto que a questão ambiental encontra a questão social. No Brasil, milhões de pessoas vivem em encostas sujeitas a deslizamentos, margens de rios suscetíveis a inundações ou bairros com infraestrutura urbana insuficiente. Muitas dessas áreas são resultado de décadas de desigualdade social, déficit habitacional e crescimento urbano desordenado. Quando as chuvas se intensificam, essas populações enfrentam riscos significativamente maiores do que aquelas que vivem em regiões dotadas de drenagem adequada, saneamento básico e infraestrutura de proteção.


O próprio Cemaden estima, em seu relatório Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil 2025, que cerca de 2.095 municípios brasileiros possuam áreas suscetíveis a riscos geo-hidrológicos, como enchentes, enxurradas e deslizamentos. Nesses territórios vivem aproximadamente 150 milhões de pessoas. Os dados revelam que a exposição aos desastres climáticos não é uma realidade restrita a algumas regiões específicas do país, mas uma condição que afeta grande parte da população brasileira.


Além das mudanças climáticas provocadas pela ação humana, outro fator importante para compreender os extremos de chuva no Brasil é o fenômeno El Niño. Segundo explicações técnicas publicadas pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, alterando a circulação atmosférica global e influenciando diretamente a distribuição das chuvas em diferentes regiões do planeta.


Em nota técnica divulgada pelo INMET sobre os impactos do El Niño no Brasil, os meteorologistas do instituto explicam que o fenômeno costuma provocar aumento das chuvas na Região Sul, elevando o risco de enchentes e inundações, enquanto áreas do Norte e Nordeste podem registrar redução das precipitações e períodos prolongados de estiagem. Embora o fenômeno seja natural e conhecido pela ciência há décadas, seus efeitos passaram a ocorrer em um contexto de aquecimento global sem precedentes históricos.


Essa preocupação também aparece nos estudos de José Marengo e de outros pesquisadores brasileiros ligados à Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima). Segundo esses pesquisadores, uma atmosfera mais quente é capaz de armazenar maior quantidade de vapor d’água, favorecendo episódios de precipitação extrema. Como consequência, fenômenos climáticos naturais como o El Niño podem produzir impactos mais severos do que aqueles observados no passado.


Diante desse cenário, um aspecto frequentemente negligenciado merece atenção: o acesso à informação. Na publicação Educação em Clima de Riscos de Desastres, organizada pelo Cemaden Educação e coordenada pelas pesquisadoras Rosana Londe e Regina Alvalá, especialistas em monitoramento e prevenção de desastres, é destacado que a redução dos riscos depende não apenas da emissão de alertas, mas também da capacidade das comunidades de compreender essas informações e transformá-las em ações concretas de prevenção.


A obra apresenta experiências desenvolvidas em escolas e comunidades vulneráveis de diferentes regiões do país e demonstra que a educação climática pode fortalecer significativamente a resiliência local. Quando moradores conhecem os riscos presentes em seus territórios, conseguem identificar sinais de perigo e compreendem os alertas emitidos pelos órgãos responsáveis, aumentam as chances de reduzir perdas humanas e materiais durante eventos extremos.


Essa reflexão é particularmente importante em um país marcado por profundas desigualdades de acesso à informação. Diversos estudos sobre comunicação de riscos, incluindo pesquisas desenvolvidas pela pesquisadora Mariana Nogueira Fonseca e publicadas na revista Mercator, apontam que a linguagem técnica, a falta de canais acessíveis de comunicação e as limitações de conectividade ainda dificultam o acesso de muitas comunidades às informações necessárias para a prevenção de desastres.


Por isso, enfrentar a crise climática exige muito mais do que ações voltadas à preservação ambiental. Como defendem o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e a Organização das Nações Unidas (ONU) em seus documentos sobre adaptação climática, é necessário investir em políticas públicas capazes de reduzir vulnerabilidades históricas e ampliar a capacidade de adaptação das populações mais expostas. Moradia digna, saneamento básico, infraestrutura urbana, educação ambiental, sistemas eficientes de alerta e participação comunitária devem caminhar lado a lado com as estratégias de mitigação das mudanças climáticas.


A Semana Mundial do Meio Ambiente nos lembra que proteger o meio ambiente significa, acima de tudo, proteger vidas. As enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024, os impactos recorrentes do El Niño e os efeitos cada vez mais evidentes das mudanças climáticas demonstram que a crise ambiental e a desigualdade social são desafios inseparáveis. Construir soluções para um deles exige enfrentar também o outro.

Falar sobre justiça climática é reconhecer que a luta por um planeta mais sustentável está diretamente ligada à construção de uma sociedade mais justa, informada e preparada para enfrentar os riscos do presente e do futuro. Em um cenário de eventos climáticos cada vez mais intensos, garantir proteção às populações mais vulneráveis não é apenas uma necessidade ambiental — é uma questão de responsabilidade social.


Referências

CEMADEN. Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil 2025. São José dos Campos: Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/cemaden. Acesso em: 2 jun. 2026.


CEMADEN EDUCAÇÃO. Educação em clima de riscos de desastres. São José dos Campos: Cemaden, 2022. Disponível em: https://educacao.cemaden.gov.br. Acesso em: 2 jun. 2026.


INSTITUTO NACIONAL DE METEOROLOGIA (INMET). El Niño em 2026? Brasília: INMET, 2026. Disponível em: https://portal.inmet.gov.br/noticias/el-ni%C3%B1o-em-2026. Acesso em: 2 jun. 2026.


INSTITUTO NACIONAL DE METEOROLOGIA (INMET). El Niño: o que esperar e como o fenômeno pode afetar o Rio Grande do Sul. Brasília: INMET, 2026. Disponível em: https://portal.inmet.gov.br. Acesso em: 2 jun. 2026.


MARENGO, José A. Impactos sociais dos eventos climáticos extremos. Ciência & Cultura, São Paulo, v. 76, n. 3, 2024. Disponível em: https://cienciaecultura.bvs.br. Acesso em: 2 jun. 2026.


SILVA DIAS, Maria Assunção Faus da; MARENGO, José A.; NOBRE, Carlos A. et al. Extremos de precipitação e desastres hidrológicos no Brasil. In: DIÁLOGOS LATINO-AMERICANOS DE GEOGRAFIA, 2025. Disponível em: https://www.agbbauru.org.br. Acesso em: 2 jun. 2026.


CLIMAINFO. Desastres climáticos afetaram mais de 336 mil pessoas no Brasil em 2025. 2026. Disponível em: https://climainfo.org.br. Acesso em: 2 jun. 2026.

 
 
 

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